O desembarque do craque causou comoção pelas ruas da cidade, com desfile em carro aberto, caracterizado com a marca de um dos parceiros do Flamengo na contratação, e torcedores espalhados à espera de um aceno de Romário. A decisão do jogador de deixar o Barcelona no auge de carreira tinha um propósito.
Vou te falar a verdade, depois de 30 anos, olhando para trás, eu não faria diferente. Eu troquei a minha possibilidade de ganhar mais dinheiro para ser mais feliz. E consegui – afirmou Romário, em entrevista à TV Globo.
A ideia da volta de Romário ao Brasil nasceu logo depois da Copa do Mundo de 1994, quando ele estava de férias no Rio de Janeiro e demorou mais tempo do que o Barcelona esperava para voltar aos treinamentos na Espanha. O Baixinho percebeu a idolatria do torcedor brasileiro e começou a pensar na possibilidade de jogar novamente em sua cidade natal.
Em conversa com o jornalista Gilmar Ferreira, que participa da mesa do “Redação sportv” e escreveu um livro lançado apenas na Holanda sobre Romário justamente nessa época, o jogador confessou esse desejo. Dois meses antes da eleição do Flamengo, Gilmar confidenciou o fato a Kleber Leite, então um dos candidatos no pleito.
O Romário me ligou, falou que queria voltar ao Brasil e que tinha um plano. Esse plano se dava de forma muito bem construída e engenhosa na cabeça dele. Ele tinha um milhão (de dólares) do patrocinador esportivo dele, um milhão de uma empresa de refrigerante que o patrocinava, um milhão do governo do Rio de Janeiro, do qual seria o maior garoto-propaganda, na cabeça dele, e o clube que o contratasse precisaria colocar mais 1,5 milhão. Em 1994, um dólar valia um real. Eu falei: “Não tem problema, mas o único clube que vai ter condição de te contratar é o São Paulo”. Ele disse: “Mas não tenho parente em São Paulo, quero voltar para o Rio de Janeiro” – contou Gilmar.
De Kleber Leite, o jornalista ouviu a promessa de que, se o dirigente vencesse a eleição, Romário seria contratado pelo Flamengo. Mas Kleber e o Baixinho não se falaram até que o jogador desembarcou para dias de folga no recesso de fim de ano.
No dia 22 de dezembro, Romário chegou ao Rio de Janeiro e participou da despedida de Luisinho Tombo. No dia seguinte, encontrou Gilmar na praia da Barra da Tijuca e seguiu para o escritório de Kleber na Zona Sul do Rio. Ainda com areia nas pernas, de short e descalço, ele sentou para conversar com o dirigente e deixou tudo acertado.
Até então, apenas quatro pessoas ligadas ao Flamengo sabiam da negociação. Além de Kleber, os outros eram Michel Asseff, Plinio Serpa Pinto e Mauricio Menezes, todos da diretoria. Já empossado presidente no começo de janeiro de 1995, Kleber embarcou para Barcelona na expectativa de convencer Joan Gaspart, vice-presidente do clube espanhol e homem forte do futebol na época, a aceitar a vontade de Romário e a proposta do Flamengo.
Kleber sentou em uma sala à espera do dirigente. Gaspart desdenhou inicialmente da tentativa de contratação, até que o presidente do Flamengo fez a pergunta: “Se eu quiser contratar o Romário, tenho que pagar quanto?”. Atônito, o espanhol respondeu: “4,5 milhões de dólares”. Kleber rebateu imediatamente: “Amanhã, o dinheiro estará na conta do Barcelona”.
Cinco parceiros foram necessários na negociação: Umbro, então fornecedora de material esportivo do Flamengo, Banco Real, BarraShopping, Brahma e a prefeitura do Rio, na época comandada por Cesar Maia, torcedor do Botafogo. Kleber concluiu a operação e acertou a contratação do jogador.